JEROPIGA DA ILHA, UM ESTUDO ETNOFOTOGRÁFICO PARA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE SOCIAL.

 

 

 

 

A fotografia tem sido, desde o seu surgimento, um importante documento de registro das mais variadas expressões imagéticas. Expressões imagéticas quando se toma a fotografia como um testemunho gráfico da realidade visível diante da memória individual ou coletiva deste bicho, “o homem”, e da sua capacidade de criação, documentação e expressão com a captura destes registros fotográficos como obra de um aparato mecânico ótico, onde seu operador apenas assessorou na sua obtenção.

De fato desde os imensos daguerreótipos que imediatamente após o anúncio da invenção inundaram as ruas do mundo industrial, que surgia, até o estrondoso surgimento das moderníssimas câmaras digitais da atualidade do terceiro milênio, nada mais temos feito, os fotógrafos, como dispõe Henri Vanlier do que capturar o índex[1] do visível, ou seja, uma reprodução perfeita, com identificação imediata do registrado.

Não descartando Barthes, Dubois, Schaeffer, Debray, Joly ou Sontag, que nos valemos dentro do nosso projeto, mas encontrando em Flusser os primeiros indicativos para o uso da fotografia em pesquisa, onde “Os aparelhos são produtos da técnica que, por sua vez, é um texto científico aplicado”.[2], e retomando o discurso primário sobre a fotografia apontada por muitos autores contemporâneos como o de ser “a imitação mais perfeita da realidade”, “um espelho com memória”, “uma fotografia vale por mil palavras”, etc., o que nos encorajou a desenvolver uma pesquisa na Ilha dos Marinheiros, no município de Rio Grande (RS), intitulada “Ilhéus de Açores na Ilha dos Marinheiros, um estudo Etno Fotográfico para construção da identidade social”.

A fotografia percorre e percorreu um caminho ligado à memória e a recordação individual ou mesmo coletiva da sociedade. Mas, caminho este, também perfeitamente identificado com a observação do visível, onde arquivando relíquias do passado torna-se mais do que um auxiliar do processo criativo de imagens, mas uma fonte externa de memória do próprio homem.

O uso da fotografia como principal elemento da pesquisa é algo novo. Vivemos a civilização da imagem. Por que não aprender através da observação da realidade registrada nas imagens fotográficas? Já que a formação do conhecimento ocidental se faz pelos sentidos, principalmente pela visão.

Entretanto a contundente produção de imagens no mundo moderno tem gerado em contrapartida uma alienante parcimônia do olhar a tudo que nos cerca e nos rodeia. O homem moderno tem sido o alvo e bombardeado em sua percepção, que é amplamente visual e auditiva, a ponto de chegar a olhares agnósticos e saturados da própria realidade. O homem moderno não tem tempo para se ver. Quando muito vê os outros. 

Acredito, que fruto deste processo, o homem moderno não é bom observador.  Penso que desenvolveu uma incapacidade no olhar que acentuou limitações visuais para sua realidade, e desenvolveu uma incansável visão que transfigura o olhar da realidade em um olhar transmutado pela metonímia do real. A possibilidade, que a fotografia lhe dá, de poder se ver em sua realidade estática lhe permitirá, acredito, desenvolver uma identificação com a realidade que o circunda.

Aproveitando a fotografia como instrumento de educação pela visão e pela oportunidade que dá ao homem de se reconhecer dentro do processo histórico, ela se constitui em depoimento concreto na abordagem de fatos e acontecimentos que relatam uma realidade, no caso a difícil e sofrida situação vivida pelos moradores da Ilha dos Marinheiros.

Não pretendo com esse trabalho mostrar a importância que deve ser dada à fotografia, mas talvez apresentar algumas idéias que produzam, com a observação fotográfica, o despertar de uma consciência crítica transformadora, do ilhéu, sobre a sua realidade e a sua importância na dialética da vida, e que a fotografia mostre dentro das ciências sociais, que mais do que imitar o real educa e forma consciências, que favorecem o desenvolvimento humano.

A fotografia como instrumento de educação na aprendizagem e partícipe na formação da consciência crítica social do educando foi objeto de nosso estudo na elaboração de nossa tese de Mestrado, sendo um instrumento já utilizado e que vislumbramos de forma eficiente.

Congelar o tempo, um momento, uma fração da história, permite ao homem na imagem fotográfica poder se rever. A constatação visual da realidade e de suas potencialidades pode ajudá-lo a tentar mudar. Se ver em sua realidade social, perceber que, ao olhar a fotografia, observa o real em que vive e que dele toma consciência. A identidade social pode, a partir daí, ser forjada com vigor, visando uma mudança na forma de pensar, agir e viver.

A Ilha dos Marinheiros, localizada no município de Rio Grande, RS, possui uma população versátil e de características peculiares. Velhos e crianças convivem na produção agrícola e pesqueira de forma artesanal, ainda no terceiro milênio. Os jovens, em idade produtiva, mudam-se para o continente em busca de um futuro mais promissor e uma vida melhor. Os velhos esperam a morte. As crianças esperam a adolescência e chance de ir embora. Ali, estes descendentes dos Açorianos levam sua vida baseada nas velhas tradições portuguesas.

Colonizada por portugueses e açorianos representa uma realidade sociocultural, econômica e antropológica que reproduz uma sociedade que vive a dicotomia do passado artesanal familiar em oposição ao futuro tecnológico, devido ao seu isolamento físico com o continente e as dificuldades econômicas impostas pela globalização. A recente ligação com o continente, ainda em construção, nos fornece a matéria prima para a realização de nossa pesquisa.

Os Ilhéus que ali vivem possuem uma resignação sofrida, um “esperar”, sem esperança: A morte ou a maior idade. Na Ilha não existe futuro! Atualmente, cerca de 200 famílias vivem na ilha, apresentando uma forma contrastante de sociedade, onde o trabalho braçal de velhos e crianças geram recursos para a sobrevivência e estas atividades rudimentares estabelecem a possibilidade de continuidade da existência do homem, naquele lugar.A Ilha dos Marinheiros encontra-se, hoje, à mercê do tempo e das dificuldades de toda ordem: não mais consegue vender seus legumes e hortaliças no mercado de Rio Grande devido à grande concorrência de produtos de outras localidades, fazendo com que boa parte do produto retorne, servindo apenas de alimento para os animais; não está obtendo lucro com a pesca, pois o camarão é produto sazonal e depende do clima e da época.Esse povo de traços lusitanos e tão humildes vive a esperar uma melhora no dia de amanhã, um escape às adversidades do dia-a-dia. Sua realidade contrasta com o mundo moderno. O ilhéu vive a lutar todos os dias pela sua permanência naquele lugar.  

A fotografia entra nesse processo como uma forma de constatação visual da realidade do ilhéu e de suas potencialidades, o que pode trazer uma mudança ou, ao menos, um espaço para reflexão de sua vida. Através da fotografia como um instrumento de educação, tem-se a oportunidade de fazer o homem se reconhecer dentro do processo histórico, já que para Collier Jr. “A máquina fotográfica não se apresenta como um remédio para nossas limitações visuais, mas como um auxiliar para nossa percepção”.[3]

O olhar fotográfico descreve com uma qualidade de síntese que supera outros tipos de leitura. Este olhar permite a ação da observação sobre o objeto fotografado de forma concreta e duradoura. A função social da fotografia documental é incontestável. Diante desta premissa, Barthes nos remete ao processo de comunicação, onde o emissor da mensagem (o fotógrafo), o meio (a fotografia) e o receptor (o observador), interagem entre si, além da imaginação e de forma que evidenciem a realidade sobre o real observado.

Henri Van Lier, ao reportar-se a Walter Benjamim em “Na Pequena História da Fotografia”, diz que a verdade é vista de outra forma, pois da câmera aos olhos, a mediação dirige-se à consciência e ali se forma pela observação da imagem fotográfica, um espaço elaborado inconscientemente no registro fotográfico, a conscientização. Pois vale a força da imagem, da fotografia estática. A sistematização cultural como fato social é evidenciada no “clicar” e olhar, pois a fotografia é uma experiência vivida, num real da realidade gravada.

Eis a principal tônica da fotografia. Pois neste reflexo de luz com memória, podemos através da verossimilhança nos identificar, reconhecer e tomar consciência do real “.

Sendo necessário estabelecer métodos de trabalho de campo que nos possibilitasse nosso estudo, adotamos um procedimento relativamente novo. Adotamos como metodologia, nesse Projeto A Grounded Theory, que é uma forma de pesquisa criada por Strauss e Glaser em 1967. De acordo com Strauss e Corbin (1990:24), os principais pontos como método de pesquisa seria: a necessidade de ir a campo, se alguém quer entender o que está acontecendo; a importância da teoria, suportada na realidade, para o desenvolvimento da disciplina; a natureza da experiência e sua passagem como uma contínua evolução; o papel ativo das pessoas na formação do mundo em que vivem e; uma ênfase na mudança e no processo, e a variabilidade e complexidade da vida. De acordo com a Grounded Theory, deve-se utilizar no processo de pesquisa a criatividade e a sensibilidade do pesquisador. Deve-se possuir experiência com a área a ser pesquisado, o que pode ser desenvolvido através da leitura sobre o assunto unida à experiência de campo.

 Outro procedimento utilizado em nosso projeto é a pesquisa através do uso de nossas próprias fotografias, as quais entregamos aos ilhéus sempre na próxima visita.

Com essas atitudes muitas outras perguntas e visitas podem ser realizadas. Também utilizamos a técnica da observação participante, através das conversas e interação pessoal com os habitantes, além da aplicação de questionário e entrevista em profundidade e principalmente a experiência pessoal como fotógrafo a mais de trinta anos e as conclusões de inúmeros debates com fotógrafos das mais variadas tendências e formações.

Nosso ponto de partida foi, portanto a leitura de tudo que se relacionasse com a Ilha dos Marinheiros, de forma que a pudéssemos colocar em foco. Um grupo de estudantes de fotografias interessados incorporou-se ao grupo inicial de forma que iniciamos a pesquisa com trinta pessoas.

Este grupo foi devidamente preparado do ponto de vista técnico, no que se refere à obtenção de imagens fotográficas e de como trabalhar a fotografia como documento, principalmente do ponto de vista do registro de aspectos significantes do cotidiano, acompanhando todo o processo, mesmo que através de fragmentos fotográficos, fosse possível uma documentação visual praticamente que total.

Mas só a teoria não era, a meu ver, suficiente para uma homogeneidade do trabalho com tantos voluntários, alguns inexperientes e outros nem tanto. Procuramos estabelecer algumas leituras obrigatórias de clássicos da literatura fotográfica. Leitura de imagens, para que vendo, formássemos um arquivo visual de formas de fotografar. Foram escolhidos alguns clássicos da literatura fotográfica como Illustrations of China and Its People (l873-74) de John Thomson; How the Other Half Lives, New York (1888) de Jacob Riss, Men at Work. Photographic Studies Of. Modern  Men And. Machines., Women at Work. 153 photographs e Kids at work. De Lewis Hine, bem Como Egypt and the holy Lands INS Historic Photographs 77 de Francis Frith. O trabalho de Sebastião Salgado em seus livros, Terra, Outras Américas, Êxodo, Foto de Crianças do Êxodo e Trabalhadores foram também bastante analisados por todos os integrantes do grupo.

O livro Antropologia Visual: A fotografia como método de Pesquisa de John Collier Jr. – Coleção Antropologia e Sociologia de 1973 da EDUSP, foi adotado como livro de cabeceira do projeto de pesquisa.

Após inúmeras reuniões, construímos uma metodologia referencial para a realização de fotografias e métodos de trabalho.

Dentro do mundo contemporâneo e pós-moderno em que vivemos fruto de um neoliberalismo desenfreado e de uma globalização asfixiante, principalmente em sociedades de países emergentes, percebemos a existência da possibilidade de resgatar através da pesquisa e da conscientização social e cultural que a utilização de antigos processos, e práticas históricas de atividades sócio culturais econômicas podem ser compatíveis com a tecnologia pós-moderna, desde que garantam a integridade e a preservação de valores fundamentais aos costumes e hábitos destas culturas nestes países. 

A ilha dos Marinheiros, escolhida como público alvo de nosso projeto de pesquisa não escapa deste processo. Entretanto possui um laboratório natural para que estudos sobre estes procedimentos possam ser desenvolvidos. O isolamento vivido por esta comunidade até pouco tempo atrás, visto que a sua ligação com o continente não data mais do que três anos, pois anteriormente só existia a balsa como ligação para o transito tanto do homem como da modernidade o que de certa forma impediu uma agressão aos fatores sócios culturais maior. Os pequenos barcos de passageiros, e a chegada da luz elétrica que trouxe consigo a televisão e com ela tudo de positivo e negativo que a modernidade comporta foram também às brechas encontradas para que o moderno chegasse a Ilha.

Porém a grande maioria de costumes, hábitos, formas de relacionamento e de comunicação permaneceram inalterados, ou eram vistos como algum egocentrismo por parte de quem praticava o diferente dentro dos modelos de relacionamento existentes e da forma de comunicação fundamentadas. Este estado de quase isolamento social nos forneceu um campo fértil para pesquisa e para podermos estudar antigas e arraigadas práticas sócio econômicas e culturais e as influências que o “moderno” pode gerar nestas culturas.

A possibilidade da ruptura da virgindade cultural existente nas culturas centenárias e nas práticas artesanais da agricultura, da pesca e as mudanças que podem ser provocadas pela globalização repentina com a ocorrência descontrolada e impactante de fenômenos tecnológicos pós-modernos não apresentam semelhanças entre as mudanças lentas e constantes apresentadas por grupos culturais do continente desde a revolução industrial e até os dias de hoje. Mas na Ilha são graves e grandes contrastes que podemos investigar, uma vez que ali a mudança está sendo feita de forma fulminante, rápida e avassaladora, agredindo costumes, formas de viver, de andar, de vestir, de relacionar-se com os vizinhos e principalmente na forma de viver.

O impacto sócio cultural está sendo tão grande, que a maioria da população da Ilha é hoje composta de velhos e crianças, pois os habitantes em idade produtiva, partem para o continente para estudar e acabam na maioria das vezes não voltando.Assim se preserva o antigo que entra em contraste e choque com o novo. A cultura é agredida no seu núcleo com o impacto do que se vê na Ilha e do que se vê pela televisão.

A ligação com o continente através da ponte tem gerado uma migração de continentais em busca da paz, do lazer, e junto com eles, vem hábitos modernos até então desconhecidos que tem influenciado os modos de agir e de viver dos ilhéus. O processo é muito grande e esta ocorrendo.

Mas como fazer ver aos Ilhéus tal processo? Como conscientizá-los da existência de um fenômeno que os está atingindo de forma agressiva e influenciando seus hábitos e costumes?

Defendemos em nossa dissertação de mestrado a possibilidade da fotografia agir como instrumento de educação e formação social, com sua função crítica e o poder de mostrar como um espelho a própria imagem e o próprio agir dentro do processo.

       “Em la vida contemporânea, la fotografia desempena um papel capital”.

( Gisele Freund)

 

A fotografia e a preocupação com as situações humanas trazem com a documentação visual e fotográfica, a fidelidade da realidade existente, gravada em um precioso artefato, a foto, que contém sempre uma representação do real; uma prova testemunhal de verdade e uma inquietante reapresentação da própria vida engatilhada em um poderoso disparador do processo de memória e de recordação, que torna presente o que foi.

Visto as duas reações imediatas que estabelece pela visualização e pela revelação do rotineiro a fotografia nos descortina novos modelos de investigação em ciências sociais, em especial na área de comunicação social, onde a imagem fotográfica não atua como coadjuvante, mas é o próprio instrumento que age e interage com o pesquisador, o pesquisado na formulação de hipóteses, teses e na formulação de conclusões.

Podemos nos libertar das palavras na descrição e na observação de fenômenos. A precisão fotográfica é praticamente que milimétrica. As reações diante de uma fotografia são incontáveis.A identificação com a realidade é imediata.A fotografia possui uma leitura universal. A fotografia é um espelho da realidade. O espelho representa objetos com fidelidade, mas não os retém. A fotografia retém a realidade e permite a re-observação quantas vezes for necessário. A fotografia praticada com seriedade e com cientificidade pode mudar a visão por parte das massas porque descortina ao pesquisado a si mesmo.


[1] Vanlier, Henry. ‘Philosofhie de la photographie”. Paris: Les Cahiers de la Photographie.1983

[2] Flusser, Vilém. Ensaio Sobre a Fotografia. Para uma Filosofia da Técnica. Portugal. Relógio d´água. 1998.

[3] Collier, John Jr. Antropologia visual: a fotografia como método de pesquisa. Coleção antropologia e sociologia. Edusp. São Paulo. 1973

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